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O apagão e as boas energias

11/11/2009

Na manhã ensolarada do dia 11/11, horas depois do primeiro apagão histórico de Itaipu, não havia outro assunto mais aceso na boca do povo do que a escuridão vivida na noite anterior. Na mídia, em rodas de conversas, nas trocas de e-mails, em ligações telefônicas… não importava a fonte, todos se comportaram como geradores do boca-a-boca, transmitindo o lado negativo do blackout. Realmente, um acontecimento como este gera megawats de dúvidas, preocupações, medos e desordem, porém o breu pode trazer também reflexões claras e modos diferentes de ver a vida em momentos que nos sentimos desligados da rotina.

O sol nasceu às 6:15h. Nos noticiários das redes de TV, nos portais da internet e nas rádios o tema eletrizante é o apagão.  Alguns estudiosos, que se acham “iluminados”, já começam a especular as possíveis causas, uma tempestade de possibilidades… aliás, falando em tempestades, fatores climáticos na região do Paraná podem ser uma das causas da “ocorrência raríssima” do blecaute, conforme disse o Ministro de Minas e Energia. A mãe natureza, coitada, agora passa a ser madrasta. Por outro lado, cidades apagadas do mapa brilham nas animações explicativas na internet. Ivaiporã, Itaberá e Tijuco Preto além de distribuir a eletricidade agora distribuem também a culpa. Até os energéticos hackers figuram no painel dos culpados que colocaram os Estados em estado de atenção! Enfim, na mídia e em todo lugar, só se fala neste assunto. Quanta energia!

Culpas e culpados de lado, muitos cidadãos comuns que estavam nas ruas, principalmente nas grandes cidades, tiveram curtos-circuitos em suas atitudes ao depararem com uma situação tão adversa. O que aconteceu? Será que vai demorar pra voltar a força? Meu filho está na rua… Será que o portão do prédio vai abrir quando eu chegar? Deus me livre, não vou embora neste escuro, não! Em meio a tanta confusão, até a ordem destes acontecimentos e frases poderia ser trocada.

Paralela à “Itaipu de caos” imposta nas cidades, já em casa, outros cidadãos, num piscar de olhos, presenciaram o desligar de suas lâmpadas e aparelhos. Tudo ficou sem força, sem luz, sem utilidade. O On e o Off se tornaram irmãos. A busca instintiva por luz, no primeiro momento, parecia nos colocar numa posição de desafio. Todos buscavam uma idéia luminosa, uma lâmpada de um gênio que não se apagou. Passados momentos de inquietação, havia somente duas saídas: dormir e esperar a luz do sol ou vivenciar o tal acontecimento raríssimo. Escolhida a segunda opção e desligando tudo da tomada, saí de casa. No elevador uma pessoa ficou presa, mas o porteiro a socorreu sem maiores problemas. No hall do prédio, moradores conversavam entre si sobre este e outros assuntos. Nas ruas, mais pessoas do que o normal, passeavam com seus cachorros e, neste vai-e-vem, fiquei observando o “comportamento negro” de cada um. Ainda no hall, conheci moradores que chegavam do trabalho, uns assustados outros com bom humor. Um deles precisou de ajuda para chegar ao oitavo andar com várias sacolas. Ajudei. No caminho, houve até ensaios engraçados de um halloween que mal aconteceu neste ano. Desci e resolvi ir até à calçada. Ali me deparei com um ex-colega de trabalho que estava subindo com seu notebook nas costas. Na escuridão e com os olhos arregalados, vi claramente o seu medo de andar com aquele equipamento pelas ruas. Guardei-o em casa e ele foi embora mais tranqüilo e seguro. Sem vontade ainda de optar pela primeira escolha, a de dormir, sentei na entrada do prédio com o porteiro, que me contou suas histórias e vivências em Pernambuco. Pouco depois, subi até meu apartamento, não gastei muita energia já que moro no primeiro andar. O banho era o próximo desafio e a idéia de tomá-lo gelado, a priori, não me agradava. Desafio?! Aos poucos, molhei a nuca, as costas e entrei com tudo debaixo da ducha que me presenteou com um dos banhos mais prazerosos do ano. Sequei-me e fui pra cama.

Com a cabeça no travesseiro e pronto para decretar um apagão interno, pensei o quão diferente e positiva foi minha noite. Depois de ontem, acredito que não há um acontecimento totalmente negativo, pois nossa vida sempre dependerá de nossas escolhas e a vontade de vivenciá-las conscientemente. Agir assim, em meio ao caos, energizou tanto minha vida pessoal como colaborativa, impulsionando-me a escrever com carinho este post com a intenção de iluminar, de alguma forma, os pensamentos  das pessoas que se sentirem algum dia em meio à escuridão. Zzzzzzzzz…

Clayton Tenório

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